SEO:  EDITORIAL

Um cenrio possvel

Os dados da pesquisa Datafolha publicada hoje acerca das intenes de voto para a eleio presidencial abrem um novo cenrio para o debate poltico e ensejam um breve exerccio especulativo acerca do futuro do pas. De fato, a manuteno do crescimento da candidatura de Fernando Henrique Cardoso e da queda de Luiz Incio Lula da Silva comea a tornar plausvel a hiptese de que a corrida presidencial se encerre j no primeiro turno.

 claro que essa  uma perspectiva incerta, e a prpria ascenso de Fernando Henrique Cardoso alerta para a volatilidade das preferncias pr-eleitorais. Ainda assim, a especulao faz sentido  medida que no se vislumbram, at agora, novos fatos polticos de impacto e que o grande fator diferencial desta campanha, o Plano Real, dever, segundo especialistas, apresentar taxas declinantes de inflao ao menos at o prximo ms.

Lembre-se ademais que a mera perspectiva de vitria j basta para atrair adeses. Como esta Folha vem revelando nos ltimos dias, cada vez mais polticos, das mais varidadas tendncias, procuram a candidatura tucana em busca de alianas. Esse afluxo pode reforar a imagem de favorito, o que por sua vez acaba atraindo mais adeses e assim por diante, num possvel efeito bola-de-neve.

Ainda que sempre no campo da especulao,  bvio que uma eventual vitria de Fernando Henrique no primeiro turno lhe daria um importante capital poltico. O vasto espectro de apoios que FHC tem recebido vem-se somar a declaraes do prprio candidato no sentido de sugerir a possibilidade de uma ampla frente, de um governo como que de aliana nacional. E se  certo que uma juno de foras dspares apresentaria naturalmente problemas de coeso,  tambm verdade que uma vitria no primeiro turno poderia dar ao eleito fora bastante para contrapor-se a presses, direcionando mesmo um bloco heterogneo para seus objetivos.

Outras indagaes que surgem nesse panorama referem-se ao futuro de partidos no pas. O PT, por exemplo, tender a ser engolfado por uma crise se for derrotado novamente. No surpreenderia se a ala radical da legenda responsabilizasse o comedimento do discurso eleitoral pelo fracasso e tentasse tomar as rdeas do partido; tampouco causaria espanto se os membros mais moderados recusassem o jugo xiita. H que acrescentar a isso o fato de que no h no PT, at agora, um nome capaz de suceder Lula na liderana da agremiao. E  duvidoso se o atual cacique petista ter condies de permancer no posto aps duas derrotas sucessivas.

No caso do PMDB a situao  algo semelhante. Seu atual lder, Orestes Qurcia, parece caminhar para uma derrota de propores at surpreendentes. Tal derrocada, se efetivada, abriria um vcuo para o qual, como no PT, no h at aqui um nome de consenso embora seja provvel que o governador paulista Luiz Antonio Fleury Filho tente preench-lo.  incerto, porm, se o PMDB conseguir manter-se intacto: as divergncais internas so notrias e j h adeses a Fernando Henrique ocorrendo de forma desorganizada. Mas, se conseguir sobreviver unido, o PMDB dever dispor de fora pondervel no futuro quadro poltico.

Assim como ocorre com Lula e Qurcia,  de se indagar se Leonel Brizola no acabar tambm afastado do cenrio poltico com mais essa derrota o que afetaria duramente o PDT, partido muito mais vinculado  figura do seu caudilho que os outros acima.

Parece esboar-se assim sempre no caso de manuteno das atuais tendncias um cenrio ps-eleio de enfraquecimento de algumas das principais lideranas polticas dos ltimos anos que no exclui a possibilidade de uma grande aliana em torno do vencedor. Um cenrio, portanto, de enormes mudanas e transformaes na vida poltica nacional.
